Editorial: O mundo sem leitores
É cada vez mais comum ouvirmos alguém dizer, quase com orgulho ou alívio: "Ninguém mais lê". Como se isso representasse um avanço inevitável dos tempos modernos.
O mais preocupante é que essa afirmação contém uma boa dose de verdade. E justamente por isso é trágica.Por Por Redação Expresso de Minas
Quarta-feira, 29 de julho de 2026 10:32A leitura, que durante séculos foi o principal instrumento para a construção do conhecimento, da criatividade e do pensamento crítico, vem perdendo espaço para a velocidade das telas, dos vídeos curtos e das respostas prontas. Aprende-se menos; consulta-se mais. Reflete-se menos; reage-se mais.
Também o ensino parece, muitas vezes, relegado a um plano secundário. Valoriza-se o resultado imediato, enquanto o processo de aprender, de errar, de pesquisar e de compreender vai sendo tratado como um caminho longo demais para uma sociedade cada vez mais impaciente.
Agora, com o avanço vertiginoso da inteligência artificial, essa transformação ganha uma nova dimensão. Ferramentas capazes de responder perguntas, escrever textos, resolver problemas e produzir imagens em segundos são extraordinárias e podem ampliar as capacidades humanas. O risco, porém, está em permitir que elas substituam a curiosidade, o estudo e a reflexão, em vez de servi-los.
Conhecimento não é apenas informação. Conhecimento é interpretação, experiência, dúvida, comparação, sensibilidade. É justamente esse processo que forma cidadãos livres, criativos e capazes de pensar por conta própria.
Se um dia chegarmos a um mundo em que todos dependam de máquinas para pensar, em que a criatividade seja apenas a repetição de padrões e em que a capacidade de questionar desapareça, talvez tenhamos construído uma sociedade extremamente eficiente, mas profundamente empobrecida em humanidade.
É possível que, num futuro não tão distante, a tecnologia permita implantes, interfaces neurais e recursos hoje inimagináveis. Mas nenhuma inovação será capaz de substituir o prazer de descobrir uma ideia por meio da leitura, de emocionar-se com um romance, de mudar de opinião diante de um bom argumento ou de criar algo verdadeiramente original.
A inteligência artificial pode ser uma das maiores conquistas da humanidade. Mas jamais deveria nos convencer de que pensar deixou de ser necessário. O dia em que abandonarmos os livros e a curiosidade em troca de respostas automáticas talvez seja o dia em que deixaremos de ser plenamente humanos.